Quinta, 02 de Julho de 2026

Governo Federal lança Estudo Nacional com 187 projetos que envolvem R$ 430 bilhões e 6,6 mil ônibus elétricos

Lançamento do ENMU foi antecipado pelo Diário do Transporte. Sergio Avelleda destaca que autoridades metropolitanas devem ser fortalecidas. Liana Variani fala em complementariedade com o Marco do Transporte Coletivo
Por janete ogawa
1 de julho de 2026 - Fonte: Diário do Transporte

O Brasil pode receber pelos próximos 30 anos, cerca de três mil quilômetros de redes urbanas e metropolitanas de trilhos e corredores BRTs; 6,6 mil ônibus elétricos e R$ 430 bilhões em investimentos na área de mobilidade urbana contemplados em 187 projetos para 21 regiões metropolitanas.
É o que mostra a versão final do ENMU (Estudo Nacional de Mobilidade Urbana), apresentada nesta quarta-feira, 1º de julho de 2026, no Rio de Janeiro.
Há cerca de um ano, em 16 de julho de 2025, o Diário do Transporte noticiava o desenvolvimento do ENMU e a previsão da conclusão dos trabalhos.
Relembre:

BNDES e Ministério das Cidades apontam que Brasil deve receber 2,5 mil km de redes de transportes como BRT, VLT, Metrô e trens urbanos


O ENMU foi desenvolvido pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e pelo Ministério das Cidades, com apoio de diversas instaituições.
De acordo com nota dos dois órgãos, a estruturação destes projetos, além de reduzir o tempo de deslocamento médio diário, também podem contribuir para a diminuição das emissões de poluentes e nos números de ocorrências de trânsito com vítimas.
O relatório final do ENMU reúne um banco de dados com 187 projetos de mobilidade urbana, que correspondem a mais de 3 mil km de metrôs, BRTs, trens e VLTs. Cada projeto acompanha mais de 100 indicadores técnico-operacionais, econômico-financeiros, socioambientais e urbanísticos que permitem sua priorização. Juntos, os projetos poderão evitar 27 mil vítimas de sinistros de trânsito e 3 milhões de toneladas anuais de CO₂, reduzir em 11% o custo das viagens e em 15% o tempo médio de deslocamento da população, gerando benefícios sociais superiores a R$ 400 bilhões. Os impactos também se estendem à cadeia produtiva, com potencial para mobilizar mais de 1,3 milhão de empregos e demandar até 6.600 ônibus elétricos, 2.400 carros metroferroviários e 600 composições de VLT.
Ao Diário do Transporte, o especialista e o sócio-fundador da Urucuia Mobilidade Urbana, Sérgio Avelleda, diz considerar o momento um dos mais importantes marcos históricos dos últimos 25 anos.
O especialista, entretanto, adverte para a necessidade de haver uma participação ampla e uma fiscalização da sociedade para que estes projetos não fiquem apenas nos estudos, mas se tornem realidades.
“Eu acho que, pelo menos no período, nos últimos 25 anos que eu atuo na mobilidade, é a primeira vez que a gente tem a consolidação de um portfólio de projetos factíveis, estudados, com as matrizes de impacto que possibilitarão a articulação agora de um plano nacional de investimentos. Agora, precisamos converter esse estudo num grande pipeline de projetos de mobilidade urbana, em que o Brasil, como nação, discuta quais são as suas prioridades e localize nesses projetos as suas prioridades” – disse ao criador e editor-chefe do Diário do Transporte, Adamo Bazani
Para Avelleda, que ocupou cargos como presidente do Metrô e da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), em São Paulo, e foi secretário municipal de transportes da capital paulista, o ENMU acerta em não apenas focar obras e compra de veículos, mas também em gestão de transportes.
O especialista atuou tanto no Governo Estadual como em prefeitura e sabe a dificuldade de articulações entre os níveis municipais e estaduais para a mobilidade urbana.
Por isso, na visão do especialista, o ENMU pode ser considerado um avanço por fortalecer autoridades e gestões metropolitanas de transportes integradas.
“Um grande avanço é a preocupação do BNDES em estruturar as soluções de gestão metropolitana onde forem feitos os investimentos. Isso pode ter um potencial de acelerar muito uma melhoria significativa da governança” – explicou Sérgio Aveleda, sócio-fundador da Urucuia: Mobilidade Urbana a Adamo Bazani.
Quem anda de ônibus, trem e metrô sabe que os limites entre cidades são apenas imaginários. Os passageiros se deslocam de um município para outro e em diferentes modos de transportes.
Mas, apesar de territorialmente as cidades e as necessidades das pessoas não terem barreiras, na gestão do transporte elas ainda existem e são várias: muitas vezes para se deslocar de uma cidade para outra são necessários dois ou três cartões de transportes. Mas não é só isso: faltam redes de trilhos e corredores de ônibus intermunicipais e, o pior: entre uma cidade vizinha da outra existe um verdadeiro abismo de qualidade nos transportes. Ônibus velhos, poluentes, precários e abarrotados, andam lado a lado de ônibus novos, com ar-condicionado, acessíveis e elétricos.
Muitas vezes, percorrer poucos quilômetros em uma cidade demora mais que em grandes extensões por trilhos ou corredores em outras.
Isso quando transporte municipal e transporte intermunicipal não se rivalizam em vez de se complementarem. Sobreposições de linhas, ausência de infraestrutura para baldeações e conexões e altos custos de deslocamentos são os reflexos desta falta de política metropolitana.
Quando se fala em racionalizar a malha de transportes, atualmente, a maior parte das medidas se limita a cortar linhas de ônibus e “despejar” os passageiros no meio do caminho sem oferecer condições adequadas para aguardarem o outro meio de transporte.
A advogada especializada em direito empresarial e risco jurídico, Liana Variani, explica que será possível correlacionar muito do conteúdo do ENMU com o Marco Regulatório do Transporte Coletivo, recentemente aprovado com vetos pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva.
“Apesar dos vetos, é possível verificar que o novo Marco Legal se traduz em segurança jurídica tanto para o poder público como para a iniciativa privada. Não se pode falar em investimento sem contratos claros e seguros e sem garantias. Com essa nova normativa é possível sim tirar muitos destes projetos do papel” – disse Liana Variani
A especialista explica que garantias extras de fontes de financiamento, além das tarifas, também auxiliam os projetos para se consolidarem na prática na vida do cidadão.
“Não basta implantar um projeto, é necessário fazer com que ele se mantenha, continue. Senão, não vai passar de inauguração. Por isso, fonte extra de financiamento garantida por lei, que vai além do esgotado modelo de tarifa paga só pelo usuário ou simplesmente injeção de subsídio direto, são fatores que vão muito além de custeio. Garantem não somente segurança financeira, como segurança jurídica” – disse Liana Variani a Adamo Bazani
O estudo cobriu 21 Regiões Metropolitanas brasileiras com população superior a 1 milhão de habitantes em área conurbada. Juntas, concentram cerca de metade da população urbana do país e praticamente toda a infraestrutura de TPC-MAC existente no território nacional. A lista inclui as 2 regiões metropolitanas da região Centro-Oeste (RIDE Distrito Federal e Goiânia), 8 regiões metropolitanas da região Nordeste (Fortaleza, João Pessoa, Maceió, Natal, Recife, Salvador, São Luís e Teresina), 2 da região Norte (Belém e Manaus), 6 da região Sudeste (Baixada Santista, Belo Horizonte, Campinas, Rio de Janeiro, São Paulo e Grande Vitória) e 3 da região Sul (Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre).
Para o ministro das Cidades, Vladimir Lima, por meio de nota, o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana é estratégico para políticas públicas que melhoram o transporte das pessoas nas cidades.
“A ajuda o Brasil a olhar para esse desafio com planejamento, com dados, visão de futuro e compromisso com a vida real da população brasileira. É um trabalho que olha para os próximos 30 anos e ajuda a organizar uma visão nacional sobre os desafios da mobilidade urbana no Brasil”, disse o ministro durante o evento.
“São 187 projetos recomendados, que gera mais de 3 mil quilômetros e pode viabilizar até R$ 430 bilhões em investimentos nos próximos 20 anos. Investimentos para gerar emprego, renda, melhorar e infraestrutura e principalmente reduzir as emissões, melhorar a qualidade de vida e aumentar a segurança no trânsito”, afirmou, na mesma nota, o diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES, Nelson Barbosa.
Em sua apresentação, o ENMU enumera mensagens centrais:
1 O Brasil precisa de uma Estratégia Nacional de Mobilidade Urbana. O Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU) propõe, para as 21 maiores regiões metropolitanas (RMs) do país, um Portfólio de Projetos de Transporte Público Coletivo de Média ou Alta Capacidade (TPC-MAC) e um conjunto de Medidas Institucionais para viabilizar os investimentos. As propostas do ENMU constituem insumos para a coordenação de esforços entre União, estados e municípios em torno de políticas públicas para ampliar, integrar e modernizar as redes de transporte público dessas metrópoles, onde vivem cerca de 40% da população brasileira
2 O investimento necessário nas Redes Futuras de Transporte Público é factível. O ENMU concluiu pela necessidade de implantar quase 190 projetos nas 21 RMs. São mais de 3 mil km em projetos de metrô, VLT, BRT e corredores de ônibus, dos quais 2,4 mil km compreendem novos trechos, uma expansão de 120% em relação à rede existente. O investimento necessário para implantação dos projetos supera R$ 400 bilhões. Com base em um planejamento de médio e longo prazos, o Brasil pode perseguir uma meta factível: elevar o investimento anual médio em 0,15% do PIB nacional para concluir os projetos propostos em pouco mais de 20 anos.
3 A mobilização de recursos é necessária, mas não é suficiente. A maioria das RMs possui sistemas fragmentados e ineficientes, caracterizados por sobreposições, falta de integração e baixa qualidade dos serviços. Essa situação tem contribuído para agravar a crise do setor, que já sofria com a perda de passageiros antes da pandemia de covid-19. A maioria das RMs tem enfrentado dificuldades para cobrir déficits operacionais crescentes e falta de recursos para investimentos. Atrair mais recursos para o transporte público é urgente, mas não tem sido suficiente para reverter o quadro do setor. É preciso combinar mobilização de recursos com Medidas Institucionais capazes de converter os sistemas fragmentados de transporte público em Redes Futuras integradas.
4 O ENMU propõe Medidas Institucionais em quatro eixos. É necessário avançar em governança interfederativa, integração operacional, bilhetagem (com integração e modicidade tarifária) e estruturas de financiamento. Os quatro eixos precisam ser tratados em conjunto, pois se sustentam mutuamente. Poucas RMs tiveram avanços relevantes nesses temas, cujas experiências bem-sucedidas foram avaliadas pelo ENMU. Das 21 RMs analisadas pelo ENMU, apenas duas contam com arranjo interfederativo para centralizar a gestão do TPC e compartilhar as decisões entre os entes públicos (Recife e Goiânia), três têm bilhetagem em nível pleno de integração e operam redes metropolitanas em termos operacionais (Goiânia, Grande Vitória, Recife).
5 Novos investimentos são alavancas para reconfigurar a mobilidade nas RMs. A estruturação dos projetos e o aporte de recursos federais deve induzir uma coordenação nas RMs para promover redes integradas, com gestão pública e transparência de dados, suportadas por estruturas de financiamento estáveis e sustentáveis. A cooperação entre estados e municípios, com apoio da União, será essencial para reestruturar os sistemas de transporte público nas RMs.
6 O retorno socioeconômico dos investimentos é positivo. As Redes Futuras proporcionam ganhos de produtividade significativos, com redução de até 15% no tempo médio de deslocamento. A prevenção dos sinistros de trânsito pode evitar mais de 27 mil vítimas e 250 óbitos por ano. A racionalização das redes e o uso de corredores de transporte mais eficientes representam diminuição de 11% no custo por viagem e proporcionam redução das emissões de CO2 e no transporte público em 12%. A população contará com aumento de até 40% na acessibilidade a serviços públicos e oportunidades nas cidades. O valor econômico de alguns dos benefícios sociais previstos foi estimado pelo ENMU, usando metodologia de Análise Custo-Benefício Socioeconômica. O valor social presente gerado para a sociedade é superior a R$ 400 bilhões de reais.
7 Os impactos para indústria e empregos são significativos. Os projetos propostos representam uma demanda estimada de até 6.600 novos ônibus elétricos, +2.400 carros metroferroviários e +600 composições de VLT. Até 1,3 milhão empregos por ano envolvidos no período de implantação, numa média de 5 mil empregos diretos e 2,5 mil indiretos em cada projeto
8 A maioria dos investimentos será realizada por meio de concessões ou parcerias público privadas. A implantação das Redes Futuras pode dar início a vários ciclos de investimentos. O portfólio de projetos prevê expansão ou requalificação de até 1,7 mil km em BRTs e/ou corredores de ônibus e mais de 1,3 mil km em sistemas sobre trilhos, incluindo construção e reforma de terminais e renovação de frota. A estruturação dos projetos com incentivos da União deverá garantir segurança jurídica, com alocação equilibrada de riscos e regras de remuneração que considerem a disponibilidade do serviço, aliada a fatores de desempenho e qualidade
Ainda na nota, tanto BNDES como Ministério das Cidades explicam os objetivos e o conteúdo geral do ENMU.
O relatório final do ENMU reúne um banco de dados com 187 projetos de mobilidade urbana, que correspondem a mais de 3 mil km de metrôs, BRTs, trens e VLTs. Cada projeto acompanha mais de 100 indicadores técnico-operacionais, econômico-financeiros, socioambientais e urbanísticos que permitem sua priorização.
Juntos, os projetos poderão evitar 27 mil vítimas de sinistros de trânsito e 3 milhões de toneladas anuais de CO₂, reduzir em 11% o custo das viagens e em 15% o tempo médio de deslocamento da população, gerando benefícios sociais superiores a R$ 400 bilhões. Os impactos também se estendem à cadeia produtiva, com potencial para mobilizar mais de 1,3 milhão de empregos e demandar até 6.600 ônibus elétricos, 2.400 carros metroferroviários e 600 composições de VLT.
Desenvolvido pelo BNDES em parceria com o Ministério das Cidades e outras instituições, o ENMU reúne diagnósticos, propostas e uma carteira de projetos para orientar a expansão e a qualificação do transporte público coletivo de média e alta capacidade nas principais regiões metropolitanas do país.
O estudo foi elaborado entre 2024 e 2026 e tem como foco as 21 regiões metropolitanas mais populosas do Brasil. A iniciativa considera projeções populacionais e de demanda em um horizonte de 30 anos, com o objetivo de apoiar o planejamento de sistemas de transporte mais integrados, eficientes e sustentáveis.
Para o Ministério das Cidades, o estudo representa uma ferramenta estratégica para fortalecer a política nacional de mobilidade urbana e apoiar estados e municípios na estruturação de projetos. A proposta é transformar o diagnóstico técnico em ações capazes de reduzir desigualdades, melhorar os deslocamentos diários da população e ampliar o acesso a emprego, educação, saúde e oportunidades.

 

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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