Albuquerque, revelam em quadrinhos uma rica e interessante mediação entre a história e a ficção em cima de fatos ocorridos no surgimento de Mauá, no ABC Paulista. A produção tem recursos da Lei de incentivo à Cultura Aldir Blanc, por meio da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Mauá.
Quando Mauá se chamava Pilar e pertencia a Santo André, centenas de trabalhadores, os escarpelinos, dedicavam-se ao trabalho nas pedreiras da região, em especial da atual da Gruta de Santa Luzia, perfurando e cortando grandes blocos de granito. Estes blocos seguiam para a produção de paralelepípedos e pedras para diversos fins em várias partes do Brasil, como o Obelisco em São Paulo, e Europa.
O livro detalha fatos da família do menino Lúcio, que ilustra a capa e tem os olhos atingidos por lascas, correndo risco de ficar cego após uma sabotagem. “Poi reze pra Santa Luzia per la salute del ragazzo”, diz o personagem Alexandre Zanella, que foi deportado como anarquista e teve no irmão Fernando um dos primeiros vereadores da cidade. A condução dos quadrinhos passa pela fé e luta contra a exploração do trabalho dos imigrantes e operários. Vários se uniram pela luta por direitos, enfrentando a polícia, a elite dominante e até a ditadura.
Jorge de Barros é formado em Letras e Ciências Sociais. Tem pós-graduação e mestrado em Antropologia Social e pós em Roteiro de Ficção para Audiovisual. Cresceu em frente ao campo de futebol do Clube Atlético Itapeva, perto da Gruta, onde se passa parte da história. “A leitura foi muito importante para mim, sempre li muito, na biblioteca das escolas onde estudei: no Florisbela, no Mirna Loide e na própria Biblioteca Cecília Meirelles”, disse Jorge. “Sempre participei da vida cultural da cidade. Por exemplo, fiz parte do grupo Taba de Corumbê, junto com Iracema Regis, Aristides Teodoro, Edson Bueno de Camargo, Cecília Camargo, Deise Assunção, Macário… Eu conheci depois de ganhar um concurso de poesia. Acompanhei a ‘Ópera da Terra Pilar’, que também foi um projeto cultural, com peças de teatro itinerantes, escritas pelo Luiz Alberto de Abreu, e ali a história da cidade era contada. Cheguei a assistir a peça que se passava no Parque da Gruta e os saraus feitos pelo Edson”, detalha o roteirista.
“As minhas habilidades desenvolvidas para o livro foram adquiridas com a experiência no tradicional, com os fundamentos que peguei e também com o que aprendi para o digital. Como ilustrador, eu fiz trabalhos de storyboard, ilustração para livro infantil e em algumas HQs também. Fiz estudos sobre pintura e ilustração digital. É gratificante fazer um projeto como esse. Fazer um trabalho desse com um amigo e aprender mais sobre a cidade que a gente gosta: Mauá”, explica Ton.
Para elaborarem, os artistas buscaram referências no Museu Barão de Mauá, bibliotecas, no Google, com historiadores da cidade, como o professor William Puntschart, Severino Correia Dias, Cecília Camargo e Lexy Soares. “Juntamos tudo para montar o roteiro e fazer o trabalho com base nisso tudo”, afirma o ilustrador Ton Albuquerque. Segundo o ilustrador, a ideia de fazer um trabalho relacionado à Gruta de Santa Luzia surgiu de um consenso com o roteirista Jorge de Barros. Eles são amigos desde a adolescência e lá se vão mais de 30 anos. “História em quadrinhos é tão leve e complexo ao mesmo tempo, tão acessível… Mais uma forma de se comunicar, de passar a ideia de forma simples”, avalia o mauaense Ton. O artista se identificou com a coragem dos personagens ao enfrentar e seguir adiante numa fase bastante obscura, perigosa, que estava acontecendo no Brasil inteiro. “Enfrentado a vida do jeito que pode e sem recuar”, afirma.
“A gente resolveu fazer uma história em quadrinhos juntos. Eu gostava de contar histórias, narrava RPG e ele sempre desenhando os personagens”, explica Jorge. São vários projetos juntos, que podem ser conferidos no site jorgedebarros.com.br. “Pelo fato de ser poeta, eu particularmente me identifico mais com a Léa Aparecida de Oliveira, o trabalho dela como sindicalista. Eu fui do Sindicato dos Professores do ABC durante dois mandatos, sei como é difícil o trabalho de militância sindical, e a história dela é extraordinária pelo pouco que ela viveu. Vida muito intensa, com arte e política”, afirma Jorge.
“Tem uma questão nos heróis anônimos da cidade. No final da HQ, tem o nome das ruas e colégios que trazem o nome deles. Fernando Zanella, o prefeito Enio Brancalion, Raimundo Eduardo da Silva, Olavo Hansen, a própria Leia, Francisco Okama – que parece que não tem um logradouro com o nome dele. Os nomes estão gravados nas placas, na frente das escolas… Mas quem são eles? Qual é a história deles? O que eles fizeram? O nome gravado sem a compreensão da história é um problema e as pessoas passam por essas ruas, estudam nessas escolas, não sabem quem é. É um empobrecimento. Faz parte da cidadania! A gente tem o direito de conhecer essas histórias, de saber sobre esse passado”, defende o professor e roteirista Jorge de Barros.